Opções – Trocando em miúdos

07/02/2018 Por: Raul Tortima

Como regra geral o mercado de derivativos é associado a alto risco, complexidade e dificuldade operacional. São argumentos legítimos, no entanto uma análise mais detalhada das idiossincrasias de cada tipo de derivativo e, mais profundamente, de cada estratégia, nos fornece uma visão menos tenebrosa e mais pragmática destes instrumentos. Um ótimo exemplo são as opções, em particular aquelas que possuem ações como ativo objeto. Existe no mercado uma infinidade de estratégias com opções, sendo a grande maioria voltada a apostas direcionais. Objetiva-se apenas acertar o movimento (de alta ou baixa) do ativo objeto em questão e, uma vez liquidada a posição, abre-se nova aposta. Por serem operações estritamente especulativas, não só envolvem um grau de risco muitas vezes bastante elevado, mas também um manejo e monitoramento mais elaborados.

Contudo, o uso de opções, em conjunto com as próprias ações, pode funcionar como um poderoso instrumento de redução de risco de uma carteira de ativos. O pulo do gato aqui é a expressão “em conjunto com as próprias ações”, pois é neste ponto que abandonamos a ideia do lucro fácil, rápido e, algumas vezes, irresponsável. Ao abraçar a ideia de que as opções podem servir a um propósito que não um fim em si mesmas, a especulação pura e simples se transforma em minimizador de riscos ou potencializador de ganhos adicionais. Portanto, a premissa fundamental para funcionar este tipo de abordagem é que as ações para composição do portfolio sejam escolhidas a partir de uma avaliação bem criteriosa, independentemente das oportunidades associadas em opções. É bastante comum a inversão deste racional – compram-se ações a partir das séries disponíveis de opções, desfigurando completamente a lógica original de complementariedade. Um caso particular, e bastante difundido, do casamento entre ação e opção, é a operação de financiamento, onde se compra a ação com uma venda consecutiva de uma “call” (opção de compra). Neste caso específico, a busca é pelo retorno pré-fixado da operação casada, tenha ou não valor a ação objeto da estratégia. Embora possa soar contraditório, este tipo de estratégia embute riscos consideráveis, pois aposta exclusivamente em alta da ação – em caso de queda, o investidor permanece com um ativo em carteira que muitas vezes jamais teria comprado isoladamente.

Posta a premissa acima e uma vez selecionado o rol de ações a partir dos fundamentos – qualitativos ou quantitativos – abrem-se as janelas de oportunidade para os trades com opções. Dois tipos de estratégia podem ser facilmente implementados, produzindo benefícios muitas vezes despercebidos pelo investidor recorrente. O primeiro guarda semelhança com a operação de financiamento citada no parágrafo anterior. Contudo, dois detalhes tornam o risco, o potencial de retorno e o objetivo completamente distintos. No caso do financiamento o strike (preço de exercício) será sempre o de valor mais baixo possível, ou “dentro do dinheiro”. A ação escolhida para o financiamento normalmente apresenta alta volatilidade e não contempla os requisitos para a participação na carteira de ações do investidor. A operação tem a única finalidade de se extrair um ganho pontual e conhecido, normalmente dentro de um período curto de um ou dois meses. Embora tenha seu valor, este tipo de estratégia, se mal implementada, sujeita o investidor a riscos de mercado substanciais. Por outro lado, ao se vender uma call de uma ação de valor e com strike bem acima do preço de mercado (“fora do dinheiro”) o investidor periodicamente terá acesso ao valor do prêmio, mantendo sua ação em carteira. Na prática funciona como um valor adicional ao ganho obtido com os dividendos e o próprio ganho de capital da ação já contida no portfolio.

A segunda estratégia para se agregar valor à carteira de ações é a venda de put (opção de venda) como alternativa à compra da ação. Embora seja uma venda a seco, como o mercado se refere às vendas sem cobertura prévia do ativo objeto, é fundamental estabelecer uma distinção. A venda de uma put a seco pura e simples busca apenas a renda do prêmio, apostando de forma direcional na apreciação da ação. Por outro lado, ao se executar a venda da put com um strike coerente com o preço que se pagaria para efetuar a compra da ação, duas situações podem ocorrer – o preço da ação pode subir acima do strike, tornando a opção sem valor (o investidor lucra o prêmio), ou pode cair abaixo do strike, o que executaria o exercício da compra do ativo. No caso do exercício, o investidor na verdade inicia a posição comprado na ação por um preço abaixo do preço que pagaria se simplesmente fosse comprar no mercado, em função do prêmio recebido pela venda prévia da put – um benefício que pode reduzir o preço de custo consideravelmente.

A combinação das duas estratégias citadas, se bem executadas, podem promover um aumento de retorno considerável na carteira de ações. Como existem inúmeras séries de calls e puts disponíveis em cada vencimento, recomenda-se o uso de softwares (ou mesmo em excel) para busca das oportunidades, que possa listar e categorizar em cada série o “moneyness” (quanto cada uma está dentro ou fora do dinheiro), o prêmio recebido, entre outras informações cruciais para a tomada de decisão sobre qual série de call ou put vender.

Sobre o autor:

Raul Tortima

Administrador e analista de sistemas, com MBA em Finanças (Ibmec), tem mais de 20 anos de experiência no mercado financeiro, tendo trabalhado para diferentes instituições financeiras. Em 2007 Raul funda a Atatika, empresa de software líder no mercado SMB (small & medium businesses), focada em soluções para o segmento de investimentos. Lidera a equipe de Engenharia ao lado de Eduardo, criando soluções inovadoras para atender às necessidades do cliente.

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