Ações: Fundamentos, timing e estratégias

10/07/2018 Por: Raul Tortima

Para além da cansativa discussão do melhor método para se avaliar a compra – ou venda – de uma ação, a verdade é que tanto a análise fundamentalista como a técnica podem fornecer instrumentos interessantes, a depender do objetivo buscado. Os gráficos e suas diversas perspectivas de análise podem ajudar no balizamento de preço, considerado sob uma ótica de prazo mais curto. Obviamente que qualquer investidor compra um ativo buscando sua valorização, mas o investidor focado em preço – trader – se orienta muitas vezes apenas pela diferença entre o valor de compra e o potencial valor de venda, o que o obriga a estabelecer parâmetros de saída em caso de frustração de expectativas (stop loss). Este tipo de abordagem tem, sim, seu espaço na gestão de investimentos, mas com um funcionamento e resultado bastante distintos quando comparados ao modelo fundamentalista de gestão.

Existe um certo modus operandi ao se utilizar tais metodologias, combinando-as como se fossem simbioticamente complementares. Utilizar conceitos de suporte e resistência para acertar pontos de fundo e topo de preços pode funcionar bem quando aplicados em uma janela curta de tempo. Quando se olha para um horizonte de anos ou décadas de valorização, uma ou mais diferença de centavos na compra ou na venda agrega muito pouco de valor ao resultado final da operação. Não que preço seja algo irrelevante na montagem de posições de longo prazo – embora alguns advoguem neste sentido – mas os critérios de avaliação para compra passam a ser outros, como os critérios qualitativos, contábeis, o valuation intrínseco do ativo e a eventual comparação com seus pares. Da mesma forma, a obtenção de ganhos curtos via day-trade a partir de uma posição originalmente comprada para o longo prazo, cria vícios e degenera uma estratégia previamente modelada com um propósito distinto.

A ideia difundida entre alguns investidores de longo prazo de que não existe timing adequado para compra reside no conceito de que o tempo e os sucessivos aportes se encarregam de diluir possíveis preços ruins executados ao longo da estratégia. Embora tenha um fundo de verdade, uma boa parcela de investidores interpreta tal conceito de forma extrema, investindo no mesmo ativo a preços cada vez mais baixos de forma a reduzir o custo médio de compra. O investimento sucessivo na mesma ação por si só não é um problema, muito pelo contrário, desde que a motivação seja baseada em um critério de valor do ativo, de que a empresa gerará retornos consistentes no futuro, e não simplesmente na necessidade de se baratear o valor médio de compra.

Os retornos consistentes de uma dada empresa, explicados pela evolução positiva da cotação em mercado e/ou pelo pagamento de dividendos ao longo de muitos anos, são corroborados por parâmetros relativamente simples de avaliação. Lucros recorrentes e geração de caixa são de fácil checagem em qualquer demonstração financeira, devendo ser colocados em perspectiva de longo prazo, dado que aumentos circunstanciais do CAPEX (investimentos realizados), ou alguma aquisição de empresa concorrente – ambos com intuito de aceleração de crescimento – podem mascarar uma evolução saudável e controlada da saúde financeira de uma empresa. Paralelamente, e no mesmo grau de importância, são avaliados o endividamento e sua capacidade de pagamento, sempre analisados dentro de um contexto estratégico por que passa a empresa. Do ponto de vista qualitativo, embora seja muitas vezes negligenciada, a governança corporativa é um poderoso instrumento de avaliação do grau de maturidade institucional, traduzida pela forma como a empresa se porta no mercado, através da transparência dos números apresentados, coerência no tratamento aos minoritários e por uma gestão livre de ingerências externas.

Obviamente que os números de receita, EBITDA, lucro líquido e endividamento são analisados de forma relativa, por meio de indicadores de crescimento e através de comparações com pares diretos. Um crescimento da dívida em valores absolutos terá mais ou menos impacto a depender do aumento proporcional do lucro ou do EBITDA gerado no período. Um decréscimo da margem líquida, quando pareada com concorrentes diretos, pode apresentar uma imagem menos negativa como em princípio poderia sugerir. Quando contextualizados na situação corrente da empresa e, quando possível na comparação a seus pares – grau de maturidade, liderança em seu mercado, rigidez ou flexibilidade operacional – os indicadores fornecem uma fotografia poderosa para inferir o verdadeiro valor no investimento na ação da empresa.

Uma das premissas mais perigosas no investimento em ações reside na limitação da análise ao escopo qualitativo. O fato de a empresa ser líder em seu mercado, bem quista junto aos consumidores e não possuir ingerência governamental não são garantia de sucesso, da mesma forma que empresas presentes em setores socialmente discutíveis não são sinônimo de fracasso – basta ver o sucesso retumbante da Ambev, com suas cervejas de qualidade duvidosa, e o crescimento vigoroso do setor bancário, com seus incontáveis consumidores instatisfeitos. Outro erro comum entre investidores é a busca de ações pagadoras de dividendos, calcada apenas no dividend yield (dividendo anual / cotação corrente), pois deixa de lado a real capacidade de pagamento da empresa e o impacto deste pagamento na estratégia de mercado desenhada. Se a empresa apresenta um alto payout (pagamento de dividendos em relação ao seu lucro anual), mas é uma empresa madura ou com alta rigidez operacional, caso das empresas do setor elétrico, o impacto é completamente distinto de outra que esteja em franca ascensão e dependa de grandes investimentos para fazer frente a este crescimento. Se a empresa consegue obter ótimo retorno em sua operação, não há motivo para que seja feito desinvestimento, até porque em muitos casos isto é feito por meio de juros sobre capital, que por ser tributado anula o efeito dos juros compostos inerente ao investimento realizado.

Sobre o autor:

Raul Tortima

Administrador e analista de sistemas com MBA em Finanças pelo IBMEC, tem mais de 20 anos de experiência no mercado financeiro. Em 2007 Raul funda a Atatika, empresa de software líder no mercado low-level focada em soluções para o segmento Financeiro.

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